Psicose 4h48 PDF Imprimir E-mail
 

O que estas peças dizem sobre nós    

    Sarah Kane tornou-se conhecida pelo modo como a sua carreira começou, com a extraordinária polêmica que provocou sua peça de estréia, Blasted, e pelo modo como acabou: o suicídio e a encenação póstuma de sua quinta e última peça, Psicose 4h48. Ambos foram momentos chocantes e bem definidos do teatro inglês recente e as suas sombras irão pairar sobre qualquer leitura que se faça sobre sua obra. Mas seria uma pena que esses extraordinários acontecimentos nos distraíssem das qualidades de suas peças. Uma pena se, ao dar atenção à mitologia da autora, perdêssemos a teatralidade explosiva, o lirismo, a energia emocional e o humor negro que suas peças contêm.
    Blasted, O Amor de Fedra, Purificados, Ânsia e Psicose 4h48 formam um corpo de trabalho que expandiu imprudentemente as fronteiras naturalistas do teatro inglês. Cada peça foi um passo de uma viagem artística, na qual Kane assinalou as visões internas mais negras e inesquecíveis: as visões de violações, de solidão, de poder, de colapso mental e, mais consistentemente, a visão do amor.
   

    Kane foi perseguida a vida toda por acessos depressivos. A cada nova ocorrência esses acessos a tornavam mais debilitada, até finalmente a levarem ao suicídio em fevereiro de 1999, aos 28 anos de idade, com o cadarço do tênis, no banheiro da clínica psiquiátrica.
    No texto, Kane levou ainda mais longe os elementos formais que tinha trabalhado em Ânsia. Desta vez não existem vozes delineadas e nenhuma indicação no texto sobre o número ou sexo dos personagens. A mesma fragmentação do eu, o perder de limites que a mente psicótica experimenta é refletida literalmente na estrutura da peça. A escrita consiste numa série de monólogos e fragmentos de diálogos entre figuras que se assemelham a um médico e a um paciente. Sem nome, a voz da autoridade também pode ser o amante, o amigo, ou apenas o diálogo da doente consigo própria. Toda a peça descreve a paisagem interior de uma mente suicida. Uma paisagem ainda mais extrema e impiedosa que a das quatro peças anteriores.

    Psicose 4h48 é o último estreitar do trabalho de Kane. A luta do eu para permanecer-se inteiro. “E a minha mente é o sujeito desses fragmentos confusos”, diz a voz da peça. Embora seja melhor sermos cautelosos aqui. A mente de quem? A mente de quem diz as palavras no teatro, definitivamente sim. Mas isso quer realmente dizer a mente da autora? Psicose 4h48 não é uma carta de despedida, mas sim, uma peça de teatro. A mente, que é o sujeito dos fragmentos da peça, é a mente da autora, mas que é também além da mente da autora. É uma mente que, pela forma aberta da peça, deixa o público entrar e reconhecer-se lá dentro.
    A voz da peça entra na terapia e na infinita medicação. Nenhuma delas consegue aliviar o sofrimento. Fala com o médico usando uma inteligência sarcástica. A comédia negra desta descrição de drogas prescritas e os negligenciáveis efeitos me faz lembrar Lear  exigindo o impossível do seu farmacêutico: “adoça a minha imaginação”.
    Psicose 4h48 é expedição a uma região da mente que a maior parte de nós preferiria nunca visitar, mas da qual muitas pessoas nunca escapam. Aqueles que por ela são apanhados ficam normalmente sem voz.
    Que a peça tenha sido escrita enquanto a autora sofria uma das crises de depressão, que é uma condição destrutiva e não criativa, é um ato de generosidade. Que a peça seja tenha sido bem sucedida artisticamente é positivamente heróico.
    O suicídio coloca sempre uma questão, e o suicídio de um escritor deixa material que os vivos podem apenas ler atentamente à procura de respostas. Inevitavelmente, a sombra da morte de Kane recairá sobre suas peças. Mas o desafio para o leitor das últimas peças de Kane não é descobrir a autora que está por detrás das palavras, mas sim, atentar sobre o que há de nós por detrás dessas peças.  


David Greig

Introdução a Sarah Kane, Complete Plays, Methuen, Fevereiro de 2001.
 


    Dois motivos principais nos levaram a encenar Psicose: o que ela fala e como ela fala. Uma temática urgente e realmente importante – cada vez mais pessoas sofrem dessa doença e muito pouco ainda de discute sobre isso – colocada com uma linguagem poética, mas que também permeia entre o dramático e o narrativo. Uma peça que tem como cenário a mente atormentada de palavras, números, músicas, vácuos, lembranças e fantasias da protagonista. Uma mente desconexa, fragmentada, difusa... Enfim, nesta curta trajetória da companhia (Água Revolta em 2003, Psicose em 2004 e Sonho de Outono em 2005), vêm nos despertando interesse o estudo por peças que nos revelam mais o funcionamento da consciência do que o discurso que é montado para “se fazê-la compreensível”.  
    Nos atrai essa encenação de devaneios, onde nos é posto o desafio de estruturar o espetáculo somente no movimento das palavras, seus equivalentes silenciosos e suspensões de tempo, devido à ausência de trama, enredo, ação, tempo linear e outros elementos usuais da dramaturgia a que estamos acostumados a lidar. E seguindo a idéia de experimentar trabalhar com o mínimo possível de recursos cênicos e em pequenas salas. Este é um espetáculo onde o que realmente importa são o texto, a atuação dos atores e a relação que se estabelece com a platéia.
    Mas não se enganem! Não pretendemos divertir ou entreter ninguém (isto não é telenovela). Parafraseando a Sarah Kane: eu odeio a idéia do teatro servir como passatempo.           

Bom espetáculo a todos.

           Marcos Damaceno